sexta-feira, 14 de outubro de 2011

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Foto grafar

Capto mundos imaginários de tão reais.
Foco uma infinidade de motivos:
Mortos, vivos, quase-mortos, quase-vivos,
Incêndios, mentes, temporais.

A vida, subjetiva, em minha objetiva,
Dribla a lente e lentamente parece que perco a retina.

Com que olhar agora eu choro?
Imploro a pose exata aos anjos e já não tenho para onde ir.
Então vou para dentro da fotografia
E não preciso sair.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Oração do lado de cá

Tudo o que eu digo é pecado
– acusa-me um amigo que vai para o céu quando morrer.
E que diabo de morte,
Estou viva!

Caminho, respiro, cometo pecados (os mais escabrosos),
Esmoreço, flutuo no tempo, durmo, gozo.
Gosto da vida, piso no calo do outro, mando calar a boca, ouço,
Perco o prumo da prosa, falo coisas sem sentido, emendo namoros,
Canto, ligo, clamo.
Sou um ser humano: amo.

Não sei o que há do próximo lado.
Nem se essa proximidade existe.
Mas não deve ser ruim como menstruação.
Nem bom feito masturbação.

sábado, 19 de junho de 2010

Um desenho

É imaginável que as pessoas morram
E provável quando chega o dia.
Elas deitam e não se levantam mais.
Alimentam seus cânceres silenciosamente.
Atravessam a rua e então já não são.
Foram – passarão a conjugar os impiedosos tempos verbais.
Vai-se embora aquele corpo que tão junto esteve ao seu
E sem limites.
Vão-se embora as maçãs do rosto,
O queixo pontiagudo e torto.
As covas a denunciar um escapado riso.
As mãos para novos apertos,
Os dedos para os cigarros ainda não tragados,
A língua e os casos proibidos
- que a língua entre os dentes forma outro tipo de sorriso.
E o que resta além do quarto vazio,
Do peito vazio,
Do morto vazio sem sobras e digitais?
Quem sabe um imenso nada e este sortimento
De vida nas coisas que ficam desenhando vendavais.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O amor reescrito

[Eu não sei dessa coisa que chamam “amor”]

O ideal seria amar várias pessoas
Não apenas uma
– como dita esse senso de monogamia
Que o pensamento não acompanha.

Gente muito mais nova,
Muito mais velha,
De ambos os sexos,
Assexuada,
Virgem recatada
E cafajeste de toda espécie.

Como uma obrigatoriedade constitucional
Artigo um, inciso tal:
A partir de hoje valem apenas os amores reais;
Nenhum platônico.
Sob pena de exílio no coração alheio em regime fechado.
Não cabe recurso e fim de papo.

Relacionamentos gastos vão para a lata do lixo
E não haverá medo de se atirar aos precipícios.
É permitido o beijo nos shoppings lotados,
Nos ônibus coletivos,
Nas missas do galo,
E nas tempestades.
Na boca.

Quem se escandalizasse da realidade morreria cedo:
De inveja.
Seria sempre verão.
Danem-se as primaveras.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Fiz esse versinho

Não devia ter dobrado a esquina daquela menina,
Ela era espontânea demais, eu não.
Eu era um homem cheio de conceitos.
E os meus defeitos: minha doutrina.

Mas foram os pés dela que convidaram ao salto
E os olhos descortinaram desejos escondidos
Que nunca, quase nunca, ousei visitar.
E ali cansei ser tão cauto.

Ela tinha certeza de todo o inesperado
Sem medir espaço, sem cálculo, só de cabeça.
Eu estava um louco varrido? Deveria ter fugido?
Responderam-me sentimentos calados.

II

Abra os poros do seu corpo e veja:
Ela é imensa, vaza, goteja, vibra.

Para onde me levou aquele sorriso?
Cheio de sarcasmo, verdadeiro de tão cínico, um imã.
A esquina daquela menina dava um beco sem saída.

sábado, 28 de novembro de 2009

Entre o dinheiro e a (falta de) felicidade

Fui passar meus sonhos no cartão de crédito
E, que lástima: saldo insuficiente.
Pedi a moça do caixa que passasse novamente,
A culpa, quem sabe, fosse do sistema
E depois, quando resolvido o problema,
Sairia dali com a felicidade empacotada.

Ela me lançou aquele olhar de coitada,
Resmungaram da fila coisas quaisquer que nem ouvi,
A expectativa de todo o mundo sobre mim ali,
E a maquineta a me delatar,
A me fazer passar tamanho alvoroço,
Já que nada valia o que tinha ao bolso
E tudo voltou para a prateleira.

No caminho para casa
– o ônibus lotado, o prazo estourado, o aluguel atrasado –
Cometi a sandice de parar para ver o mar.

Fiquei sentado a sua beira.
O vento gratuito veio até mim,
Balançou meus cabelos despojados,
Fez zoada no meu ouvido e nos ouvidos dos outros,
Os últimos raios de sol iluminaram meu rosto.
Não paguei nada por isso e foi bonito.
Mas não resolveu minhas dívidas, minhas dúvidas, minha tristeza
Ao pensar nos boletos que me esperavam em cima da mesa.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Campo minado

Como são covardes esses que resistem a tudo
E buscam nas palavras ditas um escudo
Para os males contidos no campo das próprias vaidades.
Não venham trocar suas fraldas!
Eles se dizem homens feitos.
Afeitos ao chorar das batalhas vencidas,
Deixando mulheres paridas em casa
E partindo à sangrenta busca da paz,
A paz inalcançável dos irracionais.
Menina, lamente menos um pouco!
Papai foi para o céu, não está morto,
Reviva-o em cada pensamento seu.
Ah, se os humanos soubessem,
Se ao menos pudessem saber o quanto padecem
À loucura de ser e de não ser.
Deixariam as botas enlameadas para trás
E cruzariam o mundo inteiro descalços
Sem o perigo menor de tropeçar nos cadarços.

O poema integra o livro 'Caminhar no Mundo - I Concurso de Poesia Poetas em Desassossego' que pode ser baixado ou comprado aqui.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O fundo do poço

O fundo do poço é mouco,
É escuro, é feio e fede
A parafuso solto.

É raso de tão profundo.
É silêncio e barulho
Como todo mundo.

Imundo e cheio de deserto:
Dá nojo e medo
Passar por perto.

O oco tem som de eco.

Quem foi que fundou
O fundo do poço?

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tupiniquim

Eu queria sair do País
Prum país feliz
– onde as rimas pobres fossem passíveis de perdão.
E houvesse Super Bonder para os corações partidos.
E nenhum partido fosse político.

Eu saberia dizer: cheer up, baby! com fineza.
Of course, my Love! sem certeza.
E ficaria por isso mesmo.
Amaria a esmo.
Com o meu visto só de ida sem volta.

Haveria um gringo lindo, de olhos verdes
– e agora? Eu prefiro os morenos...

No lugar da ordem e do progresso,
esses velhos costumes, God,
são meu regresso.

Vinho ruim

Trouxe uma garrafa de vinho ruim
O primeiro gole foi um arrocho,
Mas disfarcei, ele não viu.
Depois da terceira taça até mudou o gosto.

Era tinto, deixava os lábios vermelhos.
Dançamos sem música no meio da sala vazia.
Ainda assim consegui esbarrar na escrivaninha.

Fiz que ia vomitar, que vexame!
- Não chame a ambulância, já vai passar.
Só mais uns sorrisos, uns amassos, uns beijos na boca.

Loucura, que coisa.
Aconteceu comigo?
Esse troço de ir pra cama com o melhor amigo...

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Petisco (um poema gastronômico)

Caixinha redonda,
oval, oblonga,
há tempos sem tona,
mas ‘inda acanhada.

De dia tão branda
(o corpo fechado),
de noite nem tanto
me deixaste tonto
de embriagado.

Não cheiras jasmim,
tens cheiro de mim
que entro que saio
que entro de novo
e caio – cansado.

Bem pouco sagrado,
mais ato profano
que recomeçamos
um n’outro salgado.

Lanças água tônica
em “ais” desvairados…

Escorregadio te deixo, sumido,
meio esmorecido
de alívio aéreo
por seres bem mais
que a boceta do Aurélio.

Látex

Eu vejo sexo em míseros gestos de tudo,
seu lado animalesco e sujo,
seu romantismo inútil…

Se isso é coisa de pele
- a mente responde, o corpo pede -
se mexe com a gente…
… que seja feito de amor ou mero repente.

Sexo se come de boca cheia,
sem prazo de validade:
menos pudor?mais liberdade.

Estar presente, porém,
traz saudades do passado;
houve um tempo em que não era assim:
tanto cuidado!

O sexo tinha mais tesão
e menos gosto de plástico,
tato de látex,
cheiro de farmácia.

Havia a vontade?
Nada mais era preciso.
Hoje tudo é risco, perigo,
de querer, perigo do prazer,
e um tanto assim de desamor para consigo.

E falar de sexo vai ficando tão chato…
… porque ele é bom demais pra ser didático.

Ana

Uma timidez e jeito
de andar sempre cabisbaixo.
Nunca vira, assim, o rosto de uma moça,
só improváveis, rosadas, amorenadas coxas.

Joelhos?quase todos iguais
- ah sim, alguns mais delicados,
tão pouco castigados na meninice.

As unhas de Alice,
os pés de Joana,
também tinha o joanete da Marcela
- mas que tornozelos…

Jamais chegara aos cotovelos,
até que veio Ana,
curvar o ângulo dele
em menos de uma semana.

Ana e seu par de braços deslumbrantes
desaguando em mãos calmantes,
quando mexem no cabelo.

Dona de belas duas orelhas,
uma boca de abelha
cheirando a mel.

E Ana é ainda mais Ana quando dança,
mansa, furtando olhares vários
de olhos míúdos que vêem graúdos
os peitos dela balançar que nem chocalhos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Avivamento

Escutei um barulho na cozinha.
Um zumbido soprado ao pé do ouvido.
Gato preto parou na minha frente.
A porta abriu sozinha com rangido.

Acordei num repente ao sobressalto,
No ouvir de uma voz bem zombeteira.
A tevê desligou à meia-noite.
E pifou o motor da geladeira.

Toca o telefone sem ninguém,
Do outro lado da linha é só silêncio.
A vizinha falou que é ideal
Acender três fragrâncias de incenso.

Que diabo de descanso eterno!
A morte há de ter perdido os sentidos.
Ou senão não seria como é:
Meus defuntos estão aqui, todos vivos.

sábado, 11 de julho de 2009

Amores possíveis

Mulher com mulher sem jacaré.
O padre atirou fora a batina.
Homem chora tanto quanto menina.
A cura da tristeza é cafuné.

Quanta luz há na mente dos muito loucos?
Quanta escuridão na nitidez dos normais?
De tão bons acorrentam os animais.
As alucinações são refúgios de poucos.

Beijo na boca sem sexo.
Sexo sem beijo, tanto faz.
A guerra permanece produzindo paz.
A humanidade vive ainda sem nexo.

Hoje importa muito quem os outros comem,
Descontando fome e necessidade.
A ignorância não quer que seja verdade,
Mas há homem com homem sem lobisomem.

sábado, 4 de julho de 2009

Olhares ao avesso


Quantas imagens retrata!
E em sua lente o contato
Com mais azuis horizontes,
Amarelados aos montes,
A natureza em estrelato.

Janelas, elos do mundo,
Das suas sinas, viagens.
Admirar a paisagem
Parece pouco e a guarda
Fazendo dela imagens.

Aguadas noites e curvas,
Dias de sol sem fronteira.
Parar e abrir a passagem
Pro trem da vida que passa
Veloz como a vez primeira.

Do seu olhar ao avesso,
Talvez não saibam um terço...

Menino do céu, Rafael.

Poemaço


Explicação

O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce…
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.

Alguém conta a minha história
E alguém mata os personagens.)

.Cecília Meireles.


 

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